Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Um Ensaio sobre a Realidade

    Um bom amigo outro dia me disse que meus artigos aqui no blog se assemelham a crônicas ou ensaios e que eu levo jeito para a coisa. Sinceramente eu nunca havia parado para pensar em meus textos como crônicas, ensaios ou o que quer que fosse. Eu os chamo meramente de artigos por uma questão de nomenclatura, mas tenho de admitir que escrever "ensaios" se tornou algo interessante.

    Discutimos brevemente sobre o que seria exatamente um ensaio e uma crônica e chegamos à conclusão que enquanto o ensaio possui um caráter mais "científico", a crônica pode estar mais relacionada a eventos do cotidiano. De qualquer forma ele me disse que acabo misturando os dois e nesse momento decidi parar de pensar nisso e seguir escrevendo.

    E por falar nisso, deixemos de lado as nomenclaturas e sigamos com esse ensaio/artigo/crônica. Quero falar com vocês hoje um pouco a respeito da noção de realidade e fantasia que todos possuímos. Quem nunca sonhou viver em um outro mundo? Um mundo descrito em algum livro que tenha gostado e que imaginou seria infinitamente melhor do que esse aqui? Acho que qualquer ser humano vivente nesse início de século XXI tem razões de sobra para querer viver em outro lugar. Vivemos cercados de guerras egoístas em busca de recursos minerais ou por discordarmos que o Deus X é melhor do que o Deus Y. Pessoas passam fome por aí e nossos políticos deitam e rolam com nosso suado dinheiro do imposto.

    Todo ser humano é, por definição, nostálgico em relação a alguma época, imaginando que o mundo naquele momento não era tão cruel quanto é hoje. Nós sempre buscamos escapes de nossos problemas cotidianos que parecem insolúveis a curto, médio e até longo prazo. Alguém aqui acredita que verá, ainda nessa vida, paz verdadeira no Oriente Médio?

    Acho que essa é uma das razões pela qual a literatura sobreviveu através dos séculos. Além de se ocupar de retratar uma determinada época, a literatura (em especial a com elementos fantásticos) nos dá um mundo onde possamos escapar por alguns minutos e vivenciar tempos aparentemente mais amenos.

    Mas você já parou para pensar como seria viver dentro de seu livro favorito? Como seria se realmente pudesse sair do estressante século XXI e num pulo cair na Terramédia, Arrakis, Nárnia, Mirr e afins? Se você já passou por isso (e acreditem, eu passei) talvez devessem parar por um instante e refletir.

    A grande questão é que muitas vezes olhamos esse mundo por dois aspectos que só percebemos sendo a terceira parte na história, a parte neutra que acompanha os fatos e seu desenrolar. Na maioria das vezes ao lermos uma história nós enxergamos o mundo pela visão do herói e pela quase certeza (afinal existem autores que desafiam até mesmo essa linha) que no final as coisas vão acabar se acertando. Esqueça um pouco Aragorn ou Paul Atreides e se concentre no camponês ordinário. Será que gostariamos realmente de estar vivendo em uma vila da Terramédia sabendo que um exército gigantesco de monstros grotescos e sedentos de sangue estão vindo queimar sua casa e matar sua familia? É claro que como leitor você sabe que a probabilidade do herói aparecer é grande, mas e se estivesse imerso naquela realidade?

    Eu sempre fui apaixonado pelos navios de madeira antigos e pelo modo aventureiro de vida de um pirata, mas foi só depois que passei a estudá-los do ponto de vista histórico passei a perceber que a vida no mar não tinha nada de glamourosa. Também já pensei em viver em Arrakis (Duna), mas acho que odiaria o modo de vida no deserto.

    Mas o que diabos tudo isso tem a ver com a experiência de ser escritor? Bom, pensando em todos esses aspectos acabei chegando em uma conclusão polêmica. Acredito que todo bom escritor, aquele que realmente nos faz mergulhar de cabeça em sua história é aquele capaz de criar um mundo tão factível, tão real que jamais desejariamos, de forma racional, viver nele para sempre. Se nos identificamos com um mundo literário é porque espelhamos nele algum aspecto de nossa própria realidade. Um bom universo fantástico deve possuir problemas e questões que estão muito além do poder do herói de resolvê-los.

    Em seu ensaio "Sobre Histórias de Fadas", o autor J.R.R Tolkien fala algo interessante sobre a relação das crianças com a fantasia. Quando elas perguntam se aquele dragão cuspidor de fogo, que ela acabou de ler, é real, elas não estão interessadas em saber como seria o convívio com uma criatura desse porte. Mas sim, terem certeza que quando a história acabar estarão seguras em suas camas. Aparentemente nesse aspecto (sobrevivência), as crianças são mais espertas do que nós.

    Para aqueles que se perguntam se consegui alcançar esse grau de refinamento em meu livro, devo dizer que da minha parte diria não. A razão disso é simples, como criador do mundo eu tenho em minha mente (mesmo que inconscientemente) a idéia de que sempre posso mudar aquilo que me ameaça. Eu adoraria viver em Aldarian da forma como a concebi, mas acho que para vocês leitores uma vida inteira nesse mundo talvez não fosse tão fascinante como seria para mim.

    De qualquer forma, uma vez com o livro em mãos, vocês terão a oportunidade de revisitar esse mundo e rever alguns amigos sempre que quiserem, da mesma forma que eu mesmo faço com meus autores favoritos.

  por Claudio Villa


Denis L.G.
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Ótimo tema escolhido por você para ensaio. Também já havia parado para pensar nisso, e havia percebido que na verdade enxergamos o mundo fantástico apenas superficialmente durante as leituras, como forma de refúgio das nossas amarguras e problemas rotineiros. Se realmente nos imaginássemos como um morador comum desse mundo, talvez jamais desejariamos viver nele. Meus parabéns e agradecimentos, por mais uma vez, me fazer refletir por alguns momentos. Continue assim!!! Um grande abraco, Denis.

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