Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
To Kindle or not to Kindle?
O assunto do momento não poderia ser outro senão a vinda para o Brasil do Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon. Como qualquer grande novidade tecnológica, a vinda de um dispositivo desse para ca (que de novo, não tem nada) começa a causar comoção e levantar questões como "Será o fim do livro de papel?"
Vale a pena avaliar algumas coisas. A primeira é que em terras tupiniquins o tal Kindle vai custar em média R$1000,00 (o suficiente para comprar em média uns 30 livros de literatura), um preço salgado para um público que reclama do preço do livro no Brasil.
É claro que existe toda a questão do "ter uma tecnologia nova em mãos" semelhante ao que aconteceu com o Ipod e o Iphone, aquela febre tipica de novidades. Todos irão querer ter e exibir seu Kindle por ai e por algum tempo ele será exclusivo de quem pode pagar por ele.
Mas se tem algo que a evolução tecnológica nos ensinou é que nenhum aparelho permanece assim por muito tempo. Logo os chineses e sua monumental máquina de produção virão com seu "Kyndle" e logo esses aparelhinhos estarão disponíveis a pouco mais de R$100,00.
Alguns defensores falam que o Kindle (vou usar esse termo a partir daqui para definir qualquer aparelhinho semelhante que venha a existir no futuro) será a solução para que autores iniciantes, sem espaço no meio editorial tradicional, conquistem seu espaço...será?
Vamos imaginar esse futuro hipotético onde os "Kindles" são populares como os celulares. Os livros de papel são produtos de elite e restam em sua maioria como livros de arte e decoração. Os livros de literatura são em sua maioria digitais e bastante acessíveis. Nesse cenário, teoricamente, qualquer pessoa com um computador será capaz de escrever, diagramar e digitalizar seu livro para esses aparelhos. Teremos uma verdadeira enxurrada de novas obras com qualidade gráfica e de conteúdo duvidosa. Como pescar em meio a essa invasão o que vale e o que não vale a pena ler?
As editoras continuarão existindo e publicando seus livros digitais. O custo para uma boa revisão, diagramação e copidesque permanece o mesmo (é uma função humana, a nova tecnologia não resolve isso) e mais do que nunca essas empresas terão de vender seus livros a preços muito baixos. Sem o custo de impressão e distribuição, e com uma concorrência fortíssima restará a elas investir pesadamente em mídia afim de que seu produto se destaque dos demais. Mais do que nunca teremos propagandas de livros em todos os lugares e quem não tiver recursos para isso (como os autores independentes) mais do que nunca será encoberto.
Uma outra questão a se levantar. Com a necessidade de vender seus livros a preços muito baixos, mais do que nunca as editoras terão de vender quantidades cada vez maiores da obra para recuperar seu investimento. Lembre que os custos em recursos humanos para cada livro se mantém. Qual editora irá apostar em um autor iniciante, sem certeza de que sua obra irá recuperar todos os custos. No livro digital quase não temos o apelo do consumo por impulso (aquela coisa de passear em uma livraria, ver um lindo livro exposto e minutos depois passar com ele no caixa). Mais do que nunca o autor iniciante ficará dependente da internet para sua divulgação, tentando alcançar algum ar em um mar de novos autores.
Não quero parecer pessimista e conservador em relação a tecnologia. Acho que o "Kindle" vem para agregar e não para substituir. Ele sem dúvida é uma ferramenta primorosa quando tratamos de periódicos descartáveis (como jornais diários e revistas) que vão ao lixo aos milhões todos os dias. Isso sim seria uma economia que valeria a pena.
Posso soar saudosista, mas ainda acho que um livro tradicional é mais do que tinta sobre o papel. Ler um livro possui toda uma experiência tátil, olfativa, auditiva e visual. Inventem um "Kindle" com formato de um livro e onde eu possa virar as páginas como faço hoje e prometo que revejo minha posição.
Alguém lembra do Segway como a solução final para o transporte individual, limpo, fácil e barato? Quantos vocês tem visto rodando pelas ruas de São Paulo?
por Claudio Villa