Segunda-feira, 08 de Outubro de 2007

Salitre, Carvão e Enxofre

    Outro dia estava assistindo ao filme "O Último Samurai" (2003) na televisão e no decorrer da história acabei me dando conta de vários detalhes muito interessantes que nunca havia parado para pensar.

    A primeira questão, e a que mais me chamou a atenção, foi a grande quantidade de semelhanças que a história do filme possui com o meu livro. (o guerreiro tomado pela culpa, o desejo da morte, o aprendizado com os "selvagens" etc...).

    É fato que eu assisti a esse filme no cinema, mas é curioso observar tantas semelhanças em ambas as histórias uma vez que a trama central do meu livro já estava definida muito antes de assisti-lo.

    Porém, um outro detalhe que me chamou bastante atenção é o que eu batizei de "ponto de convergência", e que pelo bem ou pelo mal pode ter alterado em muito a forma como o nosso mundo é hoje. Muitas invenções transformaram drasticamente a humanidade ao longo do tempo, mas talvez nenhuma tenha alterado tanto a sociedade como o descobrimento da pólvora (dai o título do post).

    A pólvora (que começou com os fogos de artíficio entre os chineses) deixou rapidamente de ser um objeto de entretenimento para se tornar uma arma letal. Com o desenvolvimento gradativo das armas de fogo, as armaduras e espadas (e por consequência seus construtores) foram desaparecendo e se tornando obsoletos. Sobre o trovejar dos canhões, as grandes muralhas dos castelos e cidades foram gradativamente virando pó e a guerra mudou para sempre.

    A arma de fogo, objeto de uso relativamente simples, permitiu a ascensão do "covarde" frente ao herói uma vez que o inimigo não precisava mais ser encarado olho no olho (não que os arcos não permitissem esse tipo de combate a distância, mas mesmo eles requeriam uma grande técnica para serem efetivos). Com as armas de fogo, a cultura do guerreiro que lutava e morria pela espada foi substituida pelo soldado treinado, usado como bucha nos campos de batalha o que permitiu que algumas culturas (que antes possuíam uma certa igualdade bélica) se desequilibrassem fazendo com que umas sobrepujassem as outras.

    É desnecessário citar exemplos desse tipo de dispare, desde os massacres das civilizações indígenas das américas até mesmo os povos guerreiros do oriente.

    Mas porque diabos, vocês devem estar se perguntando, o Cláudio resolveu abandonar os artigos literários e resolveu dar aula de história? Na verdade, como em qualquer literatura de aventura (como as que pretendo escrever) certas decisões de cenário alteram em muito o desenrolar de uma trama, e esse é o caso da pólvora. Desde o ínicio da criação do mundo de Mirr, eu juntamente com meus amigos decidimos que jamais evoluiriamos nossa história a ponto de a pólvora passar a fazer parte do cotidiano. O que na época se tornou uma decisão para manter o clima de um universo de jogo acabou por se refletir nos dias de hoje em uma decisão literária que irá acompanhar meus livros sempre.

    Essa decisão se torna ainda mais relevante quando considero que no momento estou trabalhando em um romance inspirado na era de ouro da pirataria (séc XVII), e onde a pólvora e os canhões eram quase que uma marca registrada desse povo. Não que os piratas sejam algo recente, pois poderia se dizer que essa profissão existe desde que o primeiro homem conseguiu flutuar na água com algo mais do que um punhado de troncos. O termo pirata vem inclusive do grego antigo e significa simplesmente ladrão.

    Meu grande desafio no momento tem sido retratar e adaptar as relações econômias e políticas da época em um mundo onde a pistola e o canhão tiveram de ser substituidos pela besta e a catapulta. Uma realidade onde navios não explodem pelos ares, armaduras e espadas fazem toda a diferença e onde a magia pode desequilibrar todo um combate naval. Podem os piratas da fantasia manterem o mesmo charme e ousadia dos piratas da literatura clássica?

    Eu acredito que a resposta é sem dúvida sim e apesar da ausência de pólvora trazer problemas de enredo, ela pode levantar também questões interessantes a serem discutidas. Deixarei para vocês leitores, que no futuro ainda tiverem interesse em meus escritos, julgarem por si só se fui bem sucedido nessa tarefa ou não.

    O que posso lhes adiantar de antemão é que, como já mencionei, tenho projetos de escrever histórias que mesclem a fantasia com um pouco da ficção científica. Mesmo essas histórias passadas em uma realidade futura de Mirr terão de lidar com a ausência de pólvora o que tornará o desafio em escrevê-las ainda mais instigante.

  por Claudio Villa


Eric
Sábado, 25 de Junho de 2011
Revendo este post, dou-me conta de há quanto tempo eu visito seu blog, pois lembro quando ele saiu. A sua decisão da pólvora jamais fazer parte do cotidiano foi a mesma que eu tive sobre o universo de Os Herdeiros dos Titãs. Desde o primeiro livro ela é apresentada, mas como algo exótico e ainda sendo conhecido, trazido do oriente. Para mim, o que facilita é que é uma contagem regressiva (que nenhum personagem conhece, claro) de algo entre 200 e 300 anos para um cataclisma que destruirá todas as civilizações, pois se trata de um passado mítico de nosso mundo. Como você disse, os piratas já eram chamados assim no mundo antigo, e Pompeu, o romano, se tornou famoso destruindo armadas de mais de mil galés deles. Mas ficou a imagem do pirata do século XVII. É interessante explorarmos outras facetas do salteador dos mares, e também tenho projetos nesse sentido, com galés, abalroamentos e balistas. Boa-sorte em O Vento Norte!

Julia
Segunda-feira, 08 de Outubro de 2007
Você não me envia seu endereço, eu não deixo comments!

Roger Champs
Segunda-feira, 08 de Outubro de 2007
Engraçado... sexta-feira estava com o Ricardo discutindo coisas dos Mundos de Mirr. Ele me falava das unidades marítimas dos reinos quando eu perguntei: "Mas cara, e a pólvora? Não vai ter, certo?" E ele mais uma vez confirmou que não e aí comentamos o papel que o uso dela teria no nosso mundo. Coincidência, não? =)

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