Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

O Valor do Dinheiro

    Apesar do título, o artigo dessa semana nada tem a ver com a queda da bolsa, as ações da Petrobras ou a subida do dólar. Vamos falar de valores sim, mas no espectro da fantasia.

    Outro dia estava lendo o original de meu amigo Antonio e percebi algo que nunca parei para considerar com seriedade; como funcionaria a economia em um universo paralelo? Não estou falando de cálculos complexos como taxas de juros, impostos e afins, mas sim de algo simples porém ao mesmo tempo importante: Quanto vale o dinheiro?

    Em Pelo Sangue e Pela Fé, devido a minha inexperiência na época e a alguns vícios trazidos dos jogos de RPG, sempre que se falava em dinheiro, os valores expressos eram arbitrários. Eu simplesmente pegava um bom número de moedas de ouro e chutava, sem nunca pensar o que seria possivel fazer com esse dinheiro. Felizmente o fato de serem pouquissimas as cenas onde esses valores são expressos em números, além do reino estar vivendo uma anarquia, ajudaram a minimizar esse aparente descaso.

    Porém em O Vento Norte, com seus piratas e mercadores, o valor do dinheiro adquire uma nova importância, surgindo a necessidade de transformar moedas em algo palpável. O primeiro passo foi aproveitar a oportunidade e me livrar das genéricas moedas de ouro, prata e cobre (comuns nos jogos de R.P.G.), e inventar minha própria moeda. A primeira grande pergunta que surgiu foi: Quanto vale uma moeda? O que é possivel comprar com ela? Quanto tempo eu teria de trabalhar para consegui-la?

    Foi então que me lembrei de uma dúvida que tenho há anos e que nunca consegui compreender corretamente. Eu sempre gostei de filmes de época, em especial daqueles situados na era Vitoriana. Nesses filmes, a moeda corrente é em geral a mesma usada na Inglaterra do século XVIII, que por sua vez não tem correspondência com o nosso sistema monetário. Ao invés de utilizar o sistema decimal (por exemplo, R$1,00 ser igual a 100 centavos), seu dinheiro era dividido em libras, xelings, guinéus e pêni (o chamado sistema pré decimal). Esses filmes porém nunca tiveram tempo de explicar do que se tratava essa divisão.

    Somente esse ano, uma luz surgiu sobre esse assunto e consegui ter uma noção melhor desses valores. No livro "O Motim no Bounty" a autora Caroline Alexander teve a preocupação de explicar para nós leigos o que significam esses termos. Se você sempre teve a mesma curiosidade do que eu, ai vai um resumo breve. (extraido do livro)

    Uma libra esterlina (£1) compreendia vinte xelings (20s) e 1 xeling correspondia 12 pêni (12d). Um guinéu era igual a 1£ mais 1s. O valor da moeda nessa época pode ser avaliado por certos indicadores de padrão de vida. A mãe de Fletcher Christian (oficial da marinha inglesa) esperava viver confortavelmente com 40 guinéus por ano. Um oficial que exercesse as funções de capitão de um navio de primeira categoria recebia £28 0s. 0d (28 libras, 0 xelings e 0 pêni) por mês; um tenente £7 0s. 0d; um marinheiro de primeira classe, £1 4s. 0d.

    Com isso em mente, passei a bolar minha própria moeda. Resolvi adotar um sistema muito parecido com o britânico, por acreditar se encaixar bem na época que busco retratar no novo livro. O primeiro passo foi determinar a aparência da moeda, seu peso e ainda mais importante seu nome. Devido a estreita relação que criei entre Aldarian e o mar, resolvi por batizar a moeda como sextante (1s) A partir dai resolvi criar uma segunda moeda de valor inferior que representasse 1/20 do sextante; nascia o austral. (20a) Por fim senti a necessidade de uma terceira moeda, com valor inferior e uma relação decimal com o austral. Admito que não fui muito criativo nesse ponto e adotei o bom e velho cent (10c). Assim, a relação das moedas ficou: 1s = 20a = 200c.

    Ainda faltava no entanto determinar o que significavam esses valores. Aproveitei o livro do Antonio e emprestei a relação trabalho e renda que ele adotou. Assim sendo, um austral seria o pagamento por uma dia de trabalho de um trabalhador humilde, o suficiente para que ele comprasse comida para o dia e guardasse alguns poucos cents para eventualmente adquirir outras necessidades como tecido para se fabricar uma roupa ou outros utensilios para a casa.

    O desafio agora é utilizar esses valores e atualizar as cenas de comércio escritas até aqui. Posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado e que foi um exercício de criatividade bastante interessante. Acho que cada vez que um autor cria um elemento tão enraizado no dia a dia da cultura de seu mundo, parece que algo se transforma magicamente. Foi o que senti quando terminei o primeiro mapa de Aldarian e quando finalmente desenhei uma bandeira que me agradasse. Surge aquela sensação de que aquilo sempre existiu e era somente eu autor que ainda o desconhecia.

    Sei que a enciclopédia esta bem abandonada e espero dar um novo fôlego a ela com essa e outras pequenas criações do cotidiano.

  por Claudio Villa


Cássia/Elener
Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
Oi, Paul, tudo bom? Quanto tempo. Gostei muito do artigo sobre as moedas. Queria saber só uma coisa: o Antônio é o Gregório???? E o Pico, onde se encaixa??? Ou não se encaixa??? Preciso admitir que estou torcendo para voc~e demorar um pouco pra lançar o seu livro... pelo menos até eu ter tempo de ler o que já esta em casa hehehehe. Essa semana comprei um livro do Mestre FH, chama-se The White Plague. Vamos ver o que acontece depois disso. Beijos

Eric Ulric
Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
Num trabalho meu, voltei-me para a matemática da suméria, de base 60, e isso me forneceu idéias interessantes, principalmente para a moeda corrente. O fato de você ter se valido de algo pré-centesimal, alheio ao nosso dia-a-dia, faz com que seu mundo pareça mais palpável, e não apenas linhas escritas por alguém que vive no século XXI. Parabéns, ficou bem legal. Só tenho que concordar com o amigo acima: ao invés de cent, poderia ser outro nome. Poderia ser nadir.

Roger Henrick
Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
A criação dessas moedas deve te dado um trabalho, interessante os nomes sextante e austral. Mas o cent, sei lá. Mas será que Boreal não seria uma boa? é o seu antônimo.

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