Segunda-feira, 30 de Março de 2009
O Horror em Red Hook
Hoje quero lhes falar de uma experiência literária inédita e uma promessa cumprida que venho adiando a anos; ler algum livro do autor H.P Lovecraft.
A primeira vez que ouvi falar a respeito dele foi quando vi alguns amigos jogando um RPG intitulado "The Call of Cthulhu". Fiquei curioso ouvindo a conversa deles, em especial a parte em que diziam que quanto mais o personagem evoluía, mais ele perdia a sanidade.
Não tardou para descobrir que o tal jogo descendia da obra desse autor de nome Lovecraft e que esse Cthulhu era uma espécie de monstro ancestral com cara de polvo que aterrorizava os sonhos dos personagens, fazendo-os enlouquecer. Por muito tempo isso ficou na minha cabeça, imaginando esse romance sobre um monstro que enlouquecia as pessoas.
Lembro-me que muitas vezes o tal Chtulhu virou motivo de brincadeira, quando uma vez em que estava arrumando a biblioteca da Devir (onde trabalhei) e encontrei em meios aos livros uma carteira de alguém que eu nunca havia visto. A tal carteira tinha uma cédula de identidade, algumas moedas e uns papéis. Minha conclusão foi imediata, aquela se tratava da carteira do estagiário que havia tentado arrumar aqueles livros antes de mim e que por azar havia sido devorado pelo Cthulhu.
O tempo passou, deixei essa questão de lado e somente ha algumas semanas resolvi tirar essa história a limpo. Aproveitei meu desconto de funcionário na Cultura e tirei o livro para ler. Para minha surpresa, o tal "Call of Chtulhu" não era um romance, mas um conto com vinte e poucas páginas cujo enredo era completamente diferente do que sempre imaginei.
Minhas horas de convivência com Lovecraft foram ao mesmo tempo prazerosas e interessantes, pois pela primeira vez eu me propunha a ler algum tipo de literatura de terror, uma história cuja intenção era me assombrar. Posso lhes adiantar que ao menos nesse aspecto não funcionou. A obra de Lovecraft data do inicio do século XX, uma época diferente de hoje onde não havia uma banalização tão grande da violência. Hoje os filmes de terror com seus inumeros efeitos especiais arrancam sustos e gritos, diferente desse livro que busca o medo genuino.
Acredito que para se ler Lovecraft, deve se usar a mesma estratégia que usei para ler Julio Verne, tentar imaginar o impacto daquela obra na época em que ela foi escrita. O autor é especialista em descrever cidades e lugares decadentes, resquícios da revolução industrial que oprimia trabalhadores em prol de lucro sobre a exaustão humana. Suas ruas são escuras, suas casas ameaçam desmoronar e é nesse ambiente frio que suas histórias se desenrolam.
Definitivamente não me causou medo, mas sua escrita chamou muito minha atenção. O primeiro ponto é o fato de todas as suas narrativas se darem em primeira pessoa, um texto quase jornalístico de personagens insólitos que narram seus encontros com o desconhecido. Invariavelmente seus protagonistas acabam mortos, enlouquecidos ou no mínimo amedrontados com o que presenciaram (dai talvez a característica do RPG inspirado em sua obra).
Ler Lovecraft é como ler a primeira página de um jornal policial ou o testemunho de uma vitima que acaba de dar seu depoimento. A leitura prende e você quer avançar sempre mais um pouquinho para ver no que vai dar. Durante todo o processo o autor te prepara para um final surpreendente e apoteótico e é nesse ponto que nossa alienação estraga a brincadeira.
De qualquer forma, ler o Horror em Red Hook foi uma aula de literatura e espero que meu sub consciente tenha conseguido absorver um pouco do que aprendi ali. tenho certeza que essa experiência literária (e muitas que estou lentamente me propondo) irão influenciar positivamente meu trabalho como um todo.
por Claudio Villa