Segunda-feira, 05 de Maio de 2008
Mundos Épicos
Em minhas andanças pelos sites de outros escritores (e pelo Orkut também) andei reparando em como alguns autores falam sobre seus mundos, dando uma visão do que esperar de livros que se passem nesses cenários. O grande questionamento que tive durante essa pesquisa foi: Será que todo mundo de fantasia precisa ser tão épico?
É curioso notar como a maioria dos mundos possuem nomes complexos e grandes problemas a serem solucionados. Aparentemente todos têm sua versão de Senhor das Trevas, todos possuem grandes panteões de deuses poderosos e poucos escapam de possuirem pilares/gemas/cristais/seu item de poder aqui. Curiosamente também sempre temos números cabalísticos envolvidos (como o sete e o treze) além de quase invariavelmente esses itens de poder estarem ligados aos quatro elementos (água, terra, fogo e ar).
Outro detalhe é que tudo o que acontece nos mundos de fantasia parecem ter uma escala global, afetando invariavelmente cada ser existente e pondo em risco o mundo como um todo. É fato que boa parte desses conceitos são herdados da saga de Tolkien, assim como muitas das criaturas fantásticas utilizadas nos livros. O mesmo se dá com os autores iniciantes que antes de acabar seu primeiro livro já estão falando em trilogias (assunto já discutido aqui e que não vou retomar agora).
Por conta dessas observações, voltei para meu próprio mundo e para meus dois livros (o que publiquei e o que venho trabalhando) para ver se eu mesmo acabei não incorrendo nessas mesmas questões. É importante lembrar que esse artigo não é uma crítica velada a mundos de fantasia que sigam esse esquema, mas sim uma reflexão sobre a necessidade de todos seguirem exatamente a mesma fórmula.
Sempre tive muito receio de cair nesses clichês e ao longo do desenvolvimento do primeiro livro, fui buscando reduzir essas questões, tentando tornar minha história o mais pé no chão possível. Existe um conflito em grande escala? Sim, existe, mas ele afeta apenas uma pequena parte do mundo, sendo que todo o resto está praticamente aquém do que ocorre ali. Minha história também possui itens de poder e um "senhor do escuro", mas mesmo estes eu busquei ocultar ou mesmo diminuir seu impacto em relação ao mundo. Gosto da magia discreta, um detalhe sutil que apenas tempera a história.
Como já relatei aqui, meu mundo não pode ser chamado de meu já que ele vem sendo pensado por diversas cabeças ao longo dos anos. Algumas pessoas poderiam achar isso um problema, já que tiraria do autor a liberdade de criar e "pirar" em cima do mundo, mas eu vejo isso mais como uma benção do que como uma maldição. Quando se cria um mundo sozinho, você é quem estabelece os limites do que é plausível e do que não é, ou seja, você não tem um terceiro fator para puxar o freio e lhe dizer: "será que não está muito exagerado?" Ontem mesmo, tive uma reunião com meus amigos sobre o mundo, onde um deles estava nos relatando sua visão da gênese de Mirr. Existem sim muitos pontos fantásticos em sua história, mas existem alguns "exageros épicos" que me incomodam e que me fazem justamente ter mais tato quando planejo uma história.
Eu passei quase cinco anos escrevendo "Pelo Sangue e Pela Fé" e hoje me percebo um autor mais maduro. Cada dia mais me sinto atraido pelas intrigas humanas temperadas com fantasia em detrimento aos grandes épicos de salvação universal. Acredito que esse seja um processo natural a medida que cada autor amadurece e vai buscando seu próprio estilo. Talvez todo o mundo fantástico deva realmente iniciar épico, uma verdadeira explosão de clichês para que com o tempo vá se assentando, criando raízes e dando ao autor a possibilidade de explorar conceitos diferentes de magos onipontentes e deuses guerreiros. Acho que a fantasia é realmente mais do que isso e é exatamente esse detalhe que a torna tão fascinante como estilo literário, poder transitar entre o mágico e o real de uma forma que o leitor ainda esteja convencido de que aquilo que ele lê poderia acontecer com ele.
por Claudio Villa
1 comentário esperando autorização.
Lizzy
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Não, sinto muito, Ana – a Fantasia Medieval (vejam, vou até colocar em maiúsculas e mostrar todo o meu respeito), especialmente hoje em dia, é de fato quase sempre uma reciclagem. Mas não vejo razões para que chorem ou resmunguem por causa disso. Clichê não dita necessariamente qualidade, como presumo que saibam.
Marcelo
Domingo, 11 de Maio de 2008
eh eu concordo com a sua ideia tbm ja havia pensado nisso...
parabens pelo livro publicado ae!
Ana Cristina
Sábado, 10 de Maio de 2008
<Não deve-se confundir fantasia épica (Tolkien, D&D) com literatura fantástica (Borges, Kafka).>
Caro colega, você anda precisando ler sobre teoria da literatura fantástica. O livro do Todorov é um bom começo, e vc irá descobrir que Ficção Científica, Fantasia Medieval, Steampunk, 'Realismo Mágico' pertencem ao grande gênero da literatura fantástica. Sem contar que a sua visão sobre 'Fantasia Medieval' é bem preconceituosa, típica de quem resume o subgênero a Tolkien, ignorando a vastidão da produção.
Baikal
Sexta-feira, 09 de Maio de 2008
Minha primeira visita a "Mundos de Mirr" acontece hoje, gostei disto, vim por saber também do Fantasticon. Eu vez em quando escrevo sobre "mundos", inventando ou tentando, e me identifico pelo que falou sobre mundos de fantasia nesta segunda. Apesar de considerar tudo que foi dito sobre a impossibilidade de ser completamente original, o ponto a se temer não é a inevitabilidade disto, mas sim a de escrever apenas o refelexos das impressões dos outros materiais que leu, sem acrescentar nada ou quase nada. Pretendo ler seu material, mas acredito que a partir do que li aqui e do próprio títlo, deve ter conseguido fazer um considerável acréscimo aos ecos da fantasia.
Ricardo Dias
Quarta-feira, 07 de Maio de 2008
Mundo de fantasia (já com o épico quase sempre adicionado logo depois disso) é clichê por si só. Se está propondo a criar um mundo épico com elementos de fantasia medieval, pseudo, ou algo do gênero, você já está apanhando uma grande faixa escrito "clichê". E por mais que você nade nesse creme, só o mais que fará é mexê-lo para bater a mistura.
Não deve-se confundir fantasia épica (Tolkien, D&D) com literatura fantástica (Borges, Kafka). Não é a mesma coisa, nem de longe. Uma história sobre o fantástico é diferente de uma história sobre fantasia. Os ditames são outros. As necessidades, diversas.
Igor Zolnerkevic
Terça-feira, 06 de Maio de 2008
O importante na Fantasia, não é que o enredo aconteça em escala global ou épica. O importante é a <b>linguagem épica</b>, o espírito épico. Contando do jeito certo, a história de um gnomo preso em um armário lutando com todas as suas forças para abrir a porta trancada, pode ser tão emocionante quanto a história de Frodo e a saga do Anel.
Julia
Terça-feira, 06 de Maio de 2008
Senhor Roger Champs,
Como ousa fazer tal afirmação do meu magnânimo Senhor???
Mas, ok, admito que ele não tem limites para falar sobre isso...
Pico, seu post veio em perfeita hora... Estou tendo dificuldades na criação do meu reino justamente por conta disso... Ainda mais por conta de certos elementos que quero incluir em meu prezado pedaço de terra...
Bom, tenho muito a escrever e temos muito a pensar ainda sobre Mirr, não?
Beijos, querido, para você, para a Ana e para o Pedrinho (o bebê mais fofo deste mundo aqui)!
Rober A. Pinheiro
Terça-feira, 06 de Maio de 2008
Bacana teu ponto de vista, Claúdio.
Mas, a meu ver, creio que a questão não é nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
É claro que a obviedade da tríade mundo fantástico/deuses/heróis está aí pra quem quizer ver, mas tbm creio que essa é a gênese de toda a criação, e falo isso não apenas no gênero fantástico. Se buscarmos nas principais mitologias do mundo, incluída a nossa mitologia moderna, essa tríade sempre vai estar presente, seja em maior ou menor escala. Claro está que tbm não se deve ter isso como mote principal e, sim a partir daí construir todo o resto. Neste ponto, concordo com vc: há mto mais a ser discutido, mazelas e conflitos que podem mto bem ser inseridos neste contexto e, assim, enriquecer a escrita.
Mas, creio que somos todos ainda aprendizes nestas artes de letra e pena e, dado isto, cabe a nós nos reinventarmos.
Gde abraço.
P.S: Comecei a ler teu livro esta semana. Bem interessante. Qdo o tiver terminado, te mando minhas impressões.
Roger Champs
Terça-feira, 06 de Maio de 2008
Nobre Lorde,
Quem fez o comentário sobre a gênese do mundo? Se foi quem eu estou pensando, aposto que a reunião foi ele falando e os demais escutando! :D
Bel (May)
Terça-feira, 06 de Maio de 2008
Eu acho sua preocupação muito válida, afinal que graça tem em ser "mais um" escritor de fantasia? Acho muito bom que você se proponha escrever mais do que o que já foi escrito. Eu não sei exatamente o que você quis dizer com "intrigas humanas", mas sabe... deixa eu te dar uma sugestão de leitura. Tem a ver com a modernidade, mas quem disse que você não pode pincelar seu mundo antigo com relações humanas doentes e pretensamente saudáveis para dar um toque diferente às questões que surgirem na sua história: chama-se "Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos"; de Zygmunt Bauman, Ed. Jorge Zahar. Só uma idéia... =) Beijo, Paul! Beijos prá Aninha e pro bebê! ;***
Gounford
Segunda-feira, 05 de Maio de 2008
Cara esquenta com esse negócio de clichê não, você mesmo me apresentou o Poder do mito e sabe que tudo gira em torno de um clichê automático.
Não tem como fugir de algo como isso, é quase impossível, pois, quase tudo já foi tentado, e o que não fez sucesso foi aquilo que não foi copiado, então não tenha medo se seu mundo tiver um panteão com guerreiros épicos, ou outras coisas do gênero, pois, é assim que funciona não só o mundo de fantasia medieval, como qualquer mundo que seja usado como pano de fundo, até cenários realistas na maioria das vezes.
Um abraço e Obrigado!!!
Grinmelken
Segunda-feira, 05 de Maio de 2008
Culpado das acusações.
Acontecimentos globais sempre despertam mais atenção. Vide o sucesso que qualquer filme (bem elaborado) que envolva o genero consegue.
Os livros de fantasia de maior sucesso também seguem essa fórmula. Então acho válida. O que não pode acontecer é continuar a escrever desse modo, senão vira Marvel. O mundo ameaçado a cada dia...
Grande Abraço