Segunda-feira, 21 de Maio de 2007
De Bagdá a Kathmandu
Esta semana estava lendo um artigo muito interessante na Folha de São Paulo falando sobre a mais nova onda de livros baseados no oriente e arredores. Desde o lançamento do famoso Caçador de Pipas (Khaled Hosseinni) em 2005, vi surgir uma explosão de livros sobre o Iraque, Afeganistão, India etc...
O jornal criticava em especial o livro "De Bagdá, Com Muito Amor" que seria uma mistura de Marley & Eu com o conflito em uma zona de guerra. Para aqueles que não conhecem nenhum dos títulos, vale lembrar que Marley & Eu é a história de como um filhote de labrador mudou a vida de um casal recém casado, ensinando-os o sentido do amor.
Já em "De Bagdá, Com Muito Amor", vemos a história de um soldado americano da campanha do Iraque que encontra um cachorro em uma casa abandonada e mesmo indo contra as ordens do exército, adota o animal e luta para levá-lo de volta aos EUA.
Antes de continuar, gostaria de relembrar um cometário, deixado pelo amigo Bruno, em um post anterior. O comentário questionava porque eu era tão crítico com essas ondas temáticas (como os livros que seguiram o "Código Da Vinci") ao mesmo tempo em que defendia o gênero da fantasia como literatura legítima.
A questão é que, na minha opinião, isso mostra o quanto o mercado editorial brasileiro pode ser tendencioso e quanto o público leitor muitas vezes carece de critérios claros na hora de escolher uma leitura. Não estou dizendo que o famoso livro de Khaled Hosseini (que vai virar filme em breve) seja ruim, mas sim que muitas pessoas o lêem simplesmente por estar entre os "dez mais da Veja". Uma das coisas que me surpreendeu na matéria foi uma declaração de uma das editoras do livro que disse que no começo foi realmente dificil convencer a editora a publicar esse livro no Brasil, mas que hoje basta que a história se passe no Oriente para que 50% do caminho até as prateleiras esteja trilhado.
Não podemos negar que os eventos pós 11 de Setembro direcionaram a atenção do mundo para aquela região e que isso influenciou toda a indústria de artes, mas será que isso é pretexto suficiente para se publicar mais e mais livros sobre o tema até que este se esgote por completo?
É nesse ponto que defendo a fantasia como algo diferente de Códigos da Vinci e Caçadores de Pipas. O gênero fantástico é muito antigo e muito amplo para ser reduzido a uma simples tendência passageira. É fato que a adaptação do Senhor dos Anéis para o cinema trouxe a tona essa temática antes relegada aos EUA e Europa e a poucos e seletos grupos no Brasil. Por conta disso pudemos ver um boom de escritores brasileiros tentando emplacar suas histórias de heroísmo épico, sendo que infelizmente pouquissimos conseguiram algum resultado.
Fantasia ainda é vista como uma literatura juvenil, sem profundidade e com caráter meramente de divertimento. Vejam que não quero me contrariar quando digo isso aqui e lá trás critico os autores brasileiros que insistem em escrever histórias sempre cheias de críticas sociais e ambientadas em um mundo cão.
O que quero passar é a idéia de que livros de fantasia escritos no Brasil podem ter histórias interessantes, com tramas envolventes e personagens pouco estereotipados. Nem toda fantasia precisa falar de grupos de heróis lutando contra um senhor das trevas, sendo que é possível criar enredos tão envolventes quanto o próprio Código Da Vinci. O que falta a nós escritores para chegar a esse ponto?
Primeiro uma maturidade crescente em tentar fugir dos estereótipos. Em segundo lugar uma chance maior do mercado editorial para que invista nesse filão tão pouco explorado e que rende bons frutos nos EUA e na Europa (locais dos quais muitos dos sucessos literários são importados). Em terceiro lugar (e na minha opinião, uma das principais razões) vencer o preconceito do público contra o que é produzido em território nacional. Como me apontou muito bem o Douglas Reis (um dos sócios da Devir Livraria), no início do século passado, muitos dos nossos grandes autores escreveram ficção científica e fantasia e hoje estes são considerados marcos da literatura. De onde surgiu esse preconceito afinal?
Enquanto nós, autores nacionais de fantasia, continuamos lutando para nos fazer lidos (muitas vezes tirando do próprio bolso o capital necessário) continuaremos a ver outros livros de Cabul chegando às prateleiras. A fórmula para conquistar o público maduro e trazê-lo para a Fantasia é ainda uma incógnita, mas fico feliz de ver diversos colegas autores (em especial aqueles com quem tenho prazer de discutir o tema) trabalhando e lutando para isso acontecer. Se Tolkien, Lewis, Paollini, Rowling, Weiss e tantos outros conseguiram, não vejo porque nós aspirantes a escritores também não chegaremos lá.
por Claudio Villa