Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Conceitos Terrenos

    Antes de começar o artigo dessa semana, não poderia deixar de destacar minha surpresa e satisfação em relação ao artigo da semana passada. O post intitulado "Mundos Épicos" recebeu treze comentários de seus leitores, marca nunca antes alcançada em três anos de blog, superando até mesmo o artigo que tratava do lançamento do livro (com doze comentários). Espero que isso se torne uma tendência nos próximos artigos e que com o tempo, mais e mais pessoas os comentem e possam extrair algo de interessante disso.

    O artigo dessa semana está longe de ser tão polêmico, mas levanta uma questão igualmente interessante: Como adaptar conceitos de nossa realidade para um mundo de fantasia. Antes de mais nada é necessário explicar o que quero dizer quando falo de "conceitos terrenos".

    Eu acredito que todo romance de fantasia deva levar o leitor a algum tipo de identificação com a sua realidade independente desse romance se passar em um outro mundo. É claro que toda história fantástica deve ter o que chamamos de Sense of Wonder, o ingrediente quase mágico da literatura fantástica que transmite uma sensação de estranheza e admiração, e o que torna aquele mundo fantástico um lugar atrativo onde o leitor gostará de passar algumas horas de seu dia. Por outro lado, se errarmos na mistura e adicionarmos muito Sense of Wonder a história fica confusa e o leitor acaba por se perder na leitura ou acha-la massante demais.

    Os conceitos terrenos surgem exatamente para isso, para acrescentar linhas guias à história de forma que o leitor possa novamente pisar em terra firme e saber qual direção esta tomando. Assim sendo, esses conceitos são termos e palavras que só fazem sentido se levarmos em conta a história da Terra, e que não possuem uma ligação com o mundo fantástico em si.

    Passei por uma situação delicada essa semana quando tentava descrever uma casa em meu novo livro. Já mencionei aqui antes que muitas das construções que detalho em meu trabalho são inspiradas em construções reais (um doce para quem adivinhar em qual construção me inspirei para descrever o castelo de Northwind), assim sendo muitas vezes faço o uso de fotos desses lugares para criar uma descrição precisa.

    No caso dessa casa, eu observei que seu segundo andar era sustentado por uma série de arcos, sendo que fiz uma busca no Google para descobrir exatamente que tipo de arcos eram aqueles. Minha pesquisa respondeu minha pergunta, mas me deixou em um dilema uma vez que os tais arcos eram chamados de "góticos". O termo gótico, a princípio não faria nenhum sentido em um mundo de fantasia, uma vez que não existiu um movimento arquitetônico com essa nomenclatura. Fiquei pensando se haveria uma forma de descrever arcos góticos sem usar o termo gótico em sua descrição. Pensei em usar uma solução que adotei no livro passado onde descrevi algumas janelas com o formato de "um escudo invertido". Mesmo essa descrição fica insatisfatória, pois nem todos os leitores irão imaginar o mesmo escudo que eu.

    Outro dia estava lendo a sinopse de um livro de fantasia onde o autor optara por rebatizar os meses do ano. Esse pode ser um recurso interessante, dar um tempero especial ao seu mundo, mas a menos que o escritor se ocupe em lhe explicar o calendário, um nome diferente mais atrapalha do que ajuda. Quando se ouve por exemplo uma descrição que trata do mês de Julho, fica muito mais fácil visualizar a situação já que todos temos mais ou menos uma noção de como é o clima durante essa época. Quando o autor opta por rebatizar o mês com o nome de Radrak por exemplo, ele perde todo seu significado original. Julho é o conceito terreno que não faz sentido em um universo de fantasia, mas traz ao leitor um senso de familiaridade.

    Da minha parte eu posso dizer que preferi me arriscar nesses anacronismos terrenos a ter de explicar ao leitor detalhes e minúcias que podem ser resolvidos usando esses conceitos. É claro que a linha que separa o bom senso no uso desses anacronismos é tênue e deve-se tomar um cuidado imenso ao cruzá-la. Comparar um personagem fantástico a um personagem histórico a fim de lhe dar vida pode ser uma armadilha, assim como copiar ips literis nomes alheios vindos de outras midias (como já vi em um livro que copiou nomes de personagens de um jogo de videogame).

    As favas com o purismo fantástico onde um mundo de fantasia deva ser totalmente rebatizado. Acho que até mesmo o leitor vai preferir entender de uma forma mais simples a ter de reaprender conceitos fundamentais a cada novo livro que abre para ler.

  por Claudio Villa


1 comentário esperando autorização.

Mateus Rocha
Domingo, 25 de Maio de 2008
Teu penúltimo parágrafo te safou de um chingamento! hehe É obvio que, no livro não houve o movimento gótico, mas, você está escrevendo para pessoas do nosso mundo, não do mundo do seu livro, então saber explicar as coisas de lá com descrições que as pessoas conhecem é o mais certo a fazer. Quanto ao "mês de Julho", tenho que discordar. Se você for vender seu livro pro exterior, então terá que mudar o mês, pois quando aqui faz frio em julho, nos EUA faz calor, por exemplo... ficará meio confuso para eles se "in July" você acrescentar sinônimos de frio... []

Luciano R.S.
Domingo, 18 de Maio de 2008
Quando leio sobre esses assuntos de conceitos, sempre me lembro de um ex-professor de história antiga que comentava sobre a hipotética chegada de uma civilização alienígena na terra devastada e encontrasse uma lápide escrita: "Voltou para Jesus". A primeira indagação dos alienígenas seria: "Onde ficava essa tal cidade chamada Jesus?" Muitos dos meus amigos me questionam se eu situo meus contos em alguma época como uma pós Idade Média ou Renascimento. Isso devido à inserção de armas de fogo ainda bastante arcaicas nas minhas histórias. Eu explico que se trata de um universo à parte, mas que eles podem se orientar por esse caminho, visto que é muito trabalhoso e enfadonho, tanto para nós que escrevemos, quanto para quem vai ler, absorver toda uma "tese" sobre ambientação, costumes, ferramentas ou nomes. Orfanik. http://contos-de-aneras.blogspot.com/

Ceres
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Eu tenho problemas com descrições. Acho que precisa dar espaço para o leitor imaginar o local da forma dele, a menos que a forma do local seja necessária para algum evento, eu acho que a descrição pode ser feita com poucos detalhes. Eu, como leitora =) acho bem mais legal saber as impressões dos personagens com o ambiente que eles se encontram do que como é o ambiente em si. Já aconteceu em muitos livros que eu li e viraram filme de eu falar "nossa, eu tinha imaginado totalmente diferente".

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