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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Apagar e Reescrever

    Após mais um mês afastado do blog (não tenho tido nenhuma inspiração e pouco a relatar aqui), retorno com o que pode ser alguma novidade, ou pelo menos uma nova tentativa de desencantar meu filho rebelde, O Vento Norte.

    A já conhecida Dieta Literária não me é mais novidade, pois foi graças a ela e a cooperação de diversos colegas escritores, que consegui cortar muito da gordura e dos excessos da primeira parte do livro. Apesar de achar que ainda pode melhorar um pouco, já estou vem satisfeito com o resultado. O mesmo já não posso dizer da segunda parte no qual estou emperrado a meses e que não tem me deixado satisfeito.

    Somente para esclarecer e não soltar spoilers, a segunda parte do livro seria o momento em que Colleeen (a personagem central) finalmente começaria suas aventuras de forma independente, se lançaria a ação depois de todo o terreno preparado na primeira parte. Mas existe algo que me incomoda, o que eu chamaria de ação por ação, ou seja me parece algumas vezes que suas aventuras só servem para satisfazer o meu desejo por um pouco de movimento.

    Já tenho em minha mente a linha central da história, mas ela é complicada e estou tendo dificuldades em fazer a personagem se tornar uma peça importante na resolução dessa trama. As primeiras tentativas de escrever ações para ela me soaram improváveis e clichês, quase como as missões dadas em uma aventura de RPG; algo que funciona bem em uma mesa de jogo mas talvez seja pouco interessante em um livro.

    Colleen tem me parecido auto confiante demais, dona demais da situação levando-se em conta tudo o que esta acontecendo a sua volta. Foi ai que mais uma vez recorri ao meu ouvinte e conselheiro favorito, o Ricardo, e mais uma vez discutimos algumas questões. É curioso como essa nossa simbiose funciona, porque apesar dele me dar boas idéias, algumas vezes o simples fato de conversar com ele sobre a trama, me abre janelas e portas que não havia pensado ou não havia conseguido organizar.

    Somando-se a isso ainda houve os conselhos de outro amigo escritor/leitor que me ajudou a conceitualizar o estilo do livro, algo que ainda estava confuso na minha cabeça. O amigo Eric Novello me fez enxergar o trabalho por dois pontos de vista. O primeiro é que eu deveria escolher um conceito em minha mente e tentar inseri-lo em cada cena que eu viesse a escrever. Escolhi como "tema" do livro o pensamento "A familia é o bem mais precioso a ser conservado" e passei a rever todas as cenas e sentir se realmente isso permeava toda a história.

    O segundo ponto que ele comentou e que mudou meu horizonte também foi o de que o livro teria um conceito que pode ser chamado de "roadie" ou seja uma história onde o personagem percorre uma "estrada" (seja ela real ou metafórica) encontrando diversas pessoas em seu caminho, onde cada uma altera e acrescenta algo ao personagem. Como ele bem explicitou: "O mar é uma estrada bastante ampla" ou seja, existem infinitas possibilidades a serem exploradas.

    Com tudo isso em mãos decidi que 70% do que já escrevi para a segunda parte vai para o lixo (não literalmente, mas irei cortar essas cenas e guarda-las a parte para talvez usa-las em outro momento). Acho que mais do que criar aventuras vazias, o que minha personagem precisa é de um pouco de realidade, mostrando que nem tudo pode ser resolvido de forma imediata e que algumas vezes nossa unica opção é continuar vivendo até que uma oportunidade surja para mudarmos as coisas.

    Um exemplo interessante que tive disso ontem ainda foi durante a leitura do livro "A Seita dos Assassinos" primeiro volume da trilogia de fantasia italiana "Guerras do Mundo Emerso". Não vou me extender aqui falando do livro (farei isso em outra oportunidade), mas fiquei realmente impressionado como em uma única cena a autora conseguiu colocar sua personagem (uma menina por coincidência) em uma total situação de solidão e desamparo. Em uma questão de dias ela deixa um lar confortável e seguro para ter de encarar um mundo desconhecido e perigoso, algo como "heis aqui o mundo, você não pode voltar para casa, boa sorte".

    Essa cena me inspirou exatamente no que disse acima. Nem sempre as coisas acontecem como queremos e algumas vezes nosso unico objetivo é sobreviver. Espero começar essa reforma ainda hoje e quem sabe fazer com que de uma vez por todas "O Vento Norte" sopre forte.

  por Claudio Villa | nenhum comentário


Segunda-feira, 30 de Março de 2009

O Horror em Red Hook

Hoje quero lhes falar de uma experiência literária inédita e uma promessa cumprida que venho adiando a anos; ler algum livro do autor H.P Lovecraft.

    A primeira vez que ouvi falar a respeito dele foi quando vi alguns amigos jogando um RPG intitulado "The Call of Cthulhu". Fiquei curioso ouvindo a conversa deles, em especial a parte em que diziam que quanto mais o personagem evoluía, mais ele perdia a sanidade.

    Não tardou para descobrir que o tal jogo descendia da obra desse autor de nome Lovecraft e que esse Cthulhu era uma espécie de monstro ancestral com cara de polvo que aterrorizava os sonhos dos personagens, fazendo-os enlouquecer. Por muito tempo isso ficou na minha cabeça, imaginando esse romance sobre um monstro que enlouquecia as pessoas.

    Lembro-me que muitas vezes o tal Chtulhu virou motivo de brincadeira, quando uma vez em que estava arrumando a biblioteca da Devir (onde trabalhei) e encontrei em meios aos livros uma carteira de alguém que eu nunca havia visto. A tal carteira tinha uma cédula de identidade, algumas moedas e uns papéis. Minha conclusão foi imediata, aquela se tratava da carteira do estagiário que havia tentado arrumar aqueles livros antes de mim e que por azar havia sido devorado pelo Cthulhu.

    O tempo passou, deixei essa questão de lado e somente ha algumas semanas resolvi tirar essa história a limpo. Aproveitei meu desconto de funcionário na Cultura e tirei o livro para ler. Para minha surpresa, o tal "Call of Chtulhu" não era um romance, mas um conto com vinte e poucas páginas cujo enredo era completamente diferente do que sempre imaginei.

    Minhas horas de convivência com Lovecraft foram ao mesmo tempo prazerosas e interessantes, pois pela primeira vez eu me propunha a ler algum tipo de literatura de terror, uma história cuja intenção era me assombrar. Posso lhes adiantar que ao menos nesse aspecto não funcionou. A obra de Lovecraft data do inicio do século XX, uma época diferente de hoje onde não havia uma banalização tão grande da violência. Hoje os filmes de terror com seus inumeros efeitos especiais arrancam sustos e gritos, diferente desse livro que busca o medo genuino.

    Acredito que para se ler Lovecraft, deve se usar a mesma estratégia que usei para ler Julio Verne, tentar imaginar o impacto daquela obra na época em que ela foi escrita. O autor é especialista em descrever cidades e lugares decadentes, resquícios da revolução industrial que oprimia trabalhadores em prol de lucro sobre a exaustão humana. Suas ruas são escuras, suas casas ameaçam desmoronar e é nesse ambiente frio que suas histórias se desenrolam.

    Definitivamente não me causou medo, mas sua escrita chamou muito minha atenção. O primeiro ponto é o fato de todas as suas narrativas se darem em primeira pessoa, um texto quase jornalístico de personagens insólitos que narram seus encontros com o desconhecido. Invariavelmente seus protagonistas acabam mortos, enlouquecidos ou no mínimo amedrontados com o que presenciaram (dai talvez a característica do RPG inspirado em sua obra).

    Ler Lovecraft é como ler a primeira página de um jornal policial ou o testemunho de uma vitima que acaba de dar seu depoimento. A leitura prende e você quer avançar sempre mais um pouquinho para ver no que vai dar. Durante todo o processo o autor te prepara para um final surpreendente e apoteótico e é nesse ponto que nossa alienação estraga a brincadeira.

    De qualquer forma, ler o Horror em Red Hook foi uma aula de literatura e espero que meu sub consciente tenha conseguido absorver um pouco do que aprendi ali. tenho certeza que essa experiência literária (e muitas que estou lentamente me propondo) irão influenciar positivamente meu trabalho como um todo.

  por Claudio Villa | nenhum comentário


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