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Segunda-feira, 02 de Junho de 2008

Um Mundo Compartilhado

    Talvez um dos maiores desafios para um escritor de fantasia seja exatamente a criação do mundo onde se passam suas histórias. Eu particularmente acredito que um mundo fantástico é mais do que simplesmente um mapa com nomes esquisitos sobre ele; um mundo de fantasia deve ter profundidade, e ser real a ponto de fazer com que seu leitor acredite que apesar dos elementos inexistentes em nossa realidade, ele mesmo poderia viver nesse lugar.

    A grande questão é que a maioria dos escritores que se propõe a criar um mundo assim, acabam fazendo o sozinhos, tendo eles mesmos de criar todos os aspectos relevantes a ele tal como sua história, religião, economia, magia etc... Apesar deste ser um tremendo exercicio de paciência e criatividade, ele pode ser igualmente frustrante e muitas vezes não produzir um resultado satisfatório.

    O problema é que por mais que o autor se inspire em culturas diversas para criar suas sociedades imaginárias, ela terá sempre o mesmo pensamento e tenderá a criar coisas que apesar de diferentes possuem um sabor muito parecido.

    No meu caso a coisa funciona um pouco diferente, pois ao invés de ser o deus todo poderoso de um mundo, eu apenas faço parte dele e o compartilho com outras pessoas com um poder igual de criação e decisão. Essa abordagem traz um elemento interessante na equação que determina a criação do mundo, pois com várias cabeças imaginando Mirr tenho disponivel inúmeras idéias que me ajudam a compor minhas histórias.

    Essa semana mesmo, enquanto desenvolvia um conceito para o livro novo, acabei por consultar um dos criadores de Mirr, meu amigo e compadre Rogério. Sendo um dos membros fundadores de Mirr (antes mesmo que eu fizesse parte desse mundo), o Roger é o responsável pela criação do reino de Myrtakos, um dos mais bem desenvolvidos em matéria de informações em nosso mundo. Os mais atentos talvez se lembrem de terem lido esse nome em "Pelo Sangue e Pela Fé", onde o reino é citado (junto com diversos outros).

    No livro novo porém, Myrtakos terá um papel muito importante na trama, sendo que boa parte dela se passará em suas terras. O que vocês leitores ainda não sabem é que a história de Myrtakos e Aldarian esta intimamente ligada e essa relação será melhor explorada em outros trabalhos. A questão é que por Myrtakos não ser uma criação minha, não quis escrever a revelia e achei por bem consultá-lo sobre alguns aspectos de sua política antes de sair escrevendo.

    Tal diálogo não poderia ter sido mais proveitoso, pois tive a oportunidade de aprender questões sobre a cultura de Myrtakos que desconhecia, não só respondendo as minhas dúvidas como também criando novas linhas de história que podem ser exploradas. O que quero demonstrar com isso é como mais de uma pessoa pensando sobre um mesmo mundo é capaz de enriquecê-lo e ajudar um escritor como eu a criar suas histórias. Só para citar um outro exemplo, o conceito dos templos de Dartaria (presentes em Pelo Sangue e Pela Fé) também não foram criações minhas, mas idéias de um outro criador de Mirr (Fábião) e que acabei adaptando para minha história. Eu buscava essa solução a meses e foi nessa conversa com ele que a encontrei.

    Você quer dizer então que seu mundo é melhor do que os outros que são criados por uma única pessoa? Não, longe disso, pois uma afirmação desse tipo seria um desrespeito a grandes autores como Tolkien e Lewis, por exemplo, que dedicaram suas vidas a esse trabalho e desenvolveram universos incríveis e fascinantes. Um mundo compartilhado tem a sua própria cota de problemas exatamente por limitar um pouco a ação do escritor e por obrigá-lo a fazer essas consultas quando a história foge um pouco de sua jurisdição.

    O que quis demonstrar nesse artigo foi a diferença entre as duas linhas de criação e mostrar que o autor que decide se aventurar sozinho na criação de um mundo possui uma responsabilidade ainda maior de pesquisar e desenvolver seu universo para que ele não caia nos inúmeros clichês ja existentes. Na dúvida, mostre seu mundo a um amigo de confiança, suas idéias podem surpreendê-lo.

  por Claudio Villa | 2 comentários


Segunda-feira, 09 de Junho de 2008

Uma Semana de Expectativa

    O tema dessa semana não poderia ser diferente a não ser tratar da minha primeira participação em um evento diretamente ligado ao trabalho de escritor. Já se vai quase um ano desde o lançamento do livro em Julho do ano passado e nesse período muitas coisas aconteceram. Tive todos os problemas com a primeira edição do livro (que vocês acompanharam por aqui), o recall (que infelizmente ainda não consegui concluir) e como gradativamente tenho conquistado um espaço entre os leitores de fantasia.

    É fato que nesse período eu cheguei a fazer duas palestras (uma no EIRPG e outra na Hobbitcon), mas em ambos os casos eu ainda falava como um autor sem livro, expondo algumas idéias para um público pequeno e bastante diverso. O tempo passou, o livro saiu e finalmente as pessoas que me acompanharam por tanto tempo através desse blog tiveram a oportunidade de conhecer meu trabalho. Sai da condição de Cláudio Villa blogueiro, para a condição de Cláudio Villa escritor.

    Foram vários meses de luta buscando não só a divulgação do meu livro, mas também brigando para que mais e mais pessoas conhecessem e associassem meu nome e sinto que nesse final de semana enfrentarei o que podemos chamar de "minha primeira prova de fogo". Tudo bem, tenho de convir que uma mesa redonda não é nada tão intimidador assim (pelo menos as que assisti foram bastante descontraidas), mas pela primeira vez estarei sentado entre meus pares, discutindo literatura fantástica e representando os escritores de fantasia existentes no Brasil.

    Apesar de ter em mente quais assuntos irei abordar (a maioria deles já abordei aqui) ainda resta aquele frio na espinha, o receio de falar alguma bobagem ou de simplesmente desaparecer em meio ao caos. Sei o quanto essas oportunidades são importantes para "se fazer lembrar" e que essa mesa não pode deixar de ser vista também como um aquecimento para a que participarei durante a Fantasticon e que, imagino, será igualmente desafiante.

    De qualquer forma, fica aqui o convite a você que sempre dá uma passadinha por aqui para ler o que tenho a escrever e que queria, para variar, me ouvir falar um pouco. Será sem dúvida um imenso prazer se puder encontrar e conhecer algumas das pessoas que acompanham esse diário e que apesar dos altos e baixos acreditam no meu trabalho como escritor.

  por Claudio Villa | 1 comentário


Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Entre Mestres e Alunos

    Esse final de semana foi realmente bastante agitado e especial e não poderia deixar de reláta-lo aqui no diário. Além da celebração de meu 29º aniversário (o último antes da temida barreira dos trinta) tive a oportunidade de, pela primeira vez, participar de uma mesa redonda e estar lado a lado com algumas das referências desse mercado no Brasil.

    Acho que para quem começou esse sonho de ser escritor a pouco menos de um ano, participar de um evento assim é sem dúvida razão de grande ansiedade e expectativa, pois pela primeira vez em minha vida eu falava para um público no papel de escritor.

    Acho que o que mais tem me impressionado cada vez que compareço a um desses eventos é o carinho e o apoio que tenho recebido dessa comunidade. Seja por parte de pessoas que viram esse sonho começando, quando meu livro não passava de um calhamaço de folhas sulfites encadernadas em uma espiral ou de pessoas que possuem uma história de vida muito parecida com a minha e que assim como eu trilharam a mesma estrada, tiveram as mesmas dificuldades e hoje, após muita luta, conseguiram vencer.

    Não posso negar que ter um livro impresso tem me aberto algumas portas e permitido o contato com pessoas que antes me pareciam inacessíveis, mas é muito reconfortante saber que a cada dia que passa eu sou mais e mais reconhecido e faço cada vez mais parte desse meio.

    Estar em uma mesa cercado por quem respeito e admiro é sem dúvida uma honra e poder debater idéias com essas pessoas e também um privilégio. Confesso que houve algumas saias justas e que nem sempre minhas opiniões eram as mais aceitas, mas a oportunidade de poder passar um pouco de meus pensamentos e idéias, a exemplo do que faço aqui com vocês toda semana, me fez perceber que definitivamente é isso que quero fazer pelo resto da minha vida.

    Não vou me ater aqui aos assuntos discutidos na mesa, pois uma vez que ela foi filmada, estará em breve disponível para quem quiser assistí-la. Eu mesmo a disponibilizarei no blog assim que estiver com o arquivo em mãos. O que quero lhes passar hoje foi a sensação de ser o foco da atenção por algumas horas e de poder trocar idéias com pessoas mais experientes do que eu ao mesmo tempo em que pude passar para pessoas que estão no começo da mesma estrada que trilhei, as dicas para não tropeçar e cair nos mesmos buracos. É a sensação de ser ao mesmo tempo o mestre e o aluno.

    Outro detalhe que tenho percebido nessas conversas é que meu estilo literário vem cada dia mais amadurecendo e assumindo uma forma própria. Eu sei que ainda serei muitas vezes taxado de "seguidor de Tolkien" ou mesmo de "escritor de mainstream" por usar seres fantásticos como orcs e elfos em minhas histórias. Me considero sim um escritor universalista e não vejo problemas em utilizar seres de mitologias não nacionais. Não tenho e nunca tive vontade de escrever sobre indíos, mas cada dia mais saio da chamada fantasia medieval e me enamoro com um estilo mais contemporâneo, uma "fantasia colonial" se é que podemos chama-la assim.

    Agora só resta me preparar para o próximo desafio, a mesa redonda que irá ocorrer dia 06/07 durante a Fantasticon. Gostaria realmente de que alguns de vocês pudessem comparecer para que pudessemos também trocar idéias. Nesse meio tempo, vou tentando dar continuidade ao novo livro que quero lhes entregar até o segundo semestre de 2009

  por Claudio Villa | 3 comentários


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