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Segunda-feira, 04 de Junho de 2007

Tsunami Literária

    No post dessa semana gostaria de falar um pouco a respeito do artigo escrito pela colega escritora Ana Cristina Rodrigues e por seu colega Alexander Lancaster intitulado: Ficção Científica Popular, uma visão sobre FC Pulp. O artigo foi publicado na revista Scarium nº 19 e infelizmente não se encontra disponivel online. Para quem se interessar em ler o artigo na integra o site da revista é www.scarium.com.br

    Antes de mais nada é prudente explicar o conteúdo do tema e porque o estou abordando aqui. Peço aos colegas escritores que caso eu escreva alguma bobagem que me corrijam via comentário.

    A ficção pulp como é citada no artigo refere-se a ficção cientifica voltada exclusivamente para o entretenimento, sendo que esta possui pouco ou nenhum comprometimento com a verdade cientifica. São histórias que resgatam um pouco da inocência literária existente nas décadas de 40 e 50 quando icones como Flash Gordon e Buck Rogers surgiram.

    As histórias pulp não se preocupam em explicar o porque das coisas e nem se aquilo que narram é minimamente possivel. Tal abordagem permite a existência de monstros espaciais, espadas de luz e explosões barulhentas no espaço. Star Wars seria um bom exemplo da ficção pulp. O oposto não ocorre com o clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço que ja possui um comprometimento maior com o que é considerado cientificamente possivel.

    Mas porque um artigo sobre uma opção literária suscitaria em tanta polêmica e discórdia? É ai que entra a questão das chamadas ondas literárias. Podemos definir essas ondas como um grupo de escritores que em dado momento decide se unir para estabelecer padrões para suas obras, formando assim um movimento. Na década de 80 houve o que foi chamada de 2º onda na FC brasileira com o claro objetivo de adotar padrões mais rigidos na literatura. Para esses escritores, o comprometimento cientifico não deveria ser banalizado em prol do puro entretenimento, sendo que as obras deveriam possuir o minimo de acuidade cientifica.

    Eis que anos depois um artigo vem para contrariar tudo isso e para formar a chamada 3º onda. Preocupados com a grande fuga de leitores que cada dia mais vêem a ficção cientifica como uma literatura marginal, esses escritores voltaram-se para o passado e para uma literatura mais informal e mais "popular" por assim dizer. Para alguns escritores da chamada segunda onda esse tipo de abordagem seria uma banalização da FC como um todo, uma idéia que foi traduzida usando-se um trecho da música do Ultraje a Rigor e batizada perjorativamente de "Movimento a Gente Somos Inútil"

    Será que são mesmo?

    Eu pessoalmente tenho um receio muito grande quanto a se rotular pessoas ou grupos, especialmente quando se opõe veteranos X novatos. Já tive muitos problemas com relação a isso no passado e sou sempre favorável ao meio termo, a aceitação e integração das mudanças. O artigo não é um manifesto e tão pouco algum tipo de revolução literária, mas sim a visão de alguns autores sobre o mercado literário e sobre o que pretendem escrever.

    Entendo a visão dos escritores cientistas sobre uma possivel banalização da FC ao se adotar essa liberdade excessiva, mas vale lembrar que correção cientifica não é sempre sinal de boa literatura.

    Lembro-me de há algum tempo ter começado a ler o livro "Fragata Surprise" do autor Patrick O´Brian (o mesmo de Mestre dos Mares) e não ter conseguido passar da décima página. A razão é bem simples. Numa tentativa de trazer realismo a sua história, o autor se perde nos termos náuticos, tornando a leitura confusa, cansativa e pouco compreensivel. Talvez um marechal da marinha ache aquilo fascinante, mas para um leitor comum como eu soou pretensioso e desnecessário.

    No entanto, ao ler o livro "O Motim do Bounty" da excelente autora Caroline Alexander não tive o mesmo problema. Teoricamente, por se tratar de um relato histórico, sua linguagem deveria ser ainda pior mas ela consegue transmitir as mesmas emoções da vida no mar sem as complexidades técnicas.

    Minha opinião sobre o assunto é simples, sempre havera espaço para a literatura popular e para a literatura cientifica e ambas há de encontrarem seu público. O que não podemos é criar conflitos, buscando qual literatura é a correta, pois esse tipo de coisa não existe.

    É claro que esse tipo de tendência pode chegar a fantasia e acabar sendo usada como pretexto para se escrever literatura ruim. Sempre haverão aqueles escritores que se dirão injustiçados e que estão certos de que suas obras são marcos literários incompreendidos pelo público e pela crítica. Alguns deles poderão dizer que esse é seu estilo, quer gostem ou não e talvez mesmo esses encontrem sua parcela de público.

    Da minha parte continuarei buscando fazer uma literatura menos maniqueista e mais voltada para os personagens e cenários do que para magias poderosas e deuses onipresentes. Esse é meu estilo e acredito que com humildade e trabalho encontrarei meu público.

  por Claudio Villa | 1 comentário


Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

A Magia do Convencimento

    Outro dia estava escrevendo uma cena para o novo livro quando me peguei pensando o que deveria fazer para tornar aquele momento o mais convincente possível para o leitor. Não são poucas as vezes em que ao preparar um momento da história acabo me bloqueando ao concluir que aquela proposta é demasiada inverossímil para convencer qualquer um de que ela possa ocorrer daquela forma.

    É claro que alguns poderão dizer que "Em um mundo de fantasia não existem regras, tudo é possível", mas eu sou crítico em relação a isso. Eu sempre procurei escrever histórias que tenham um pé no céu e outro no chão. Não gosto de resolver todos os problemas dos personagens com uma simples imposição de mãos (usando magias) apesar de algumas vezes acabar me deixando seduzir por isso.

    Afinal, o que faz de um mundo de fantasia algo realmente interessante e que desperte a atenção do leitor. É muito comum observar no Orkut diversas pessoas que clamam ter criado um novo mundo de fantasia, repleto de histórias, criaturas e aventuras fascinantes. Do ponto de vista "técnico", criar um mundo de fantasia é realmente muito fácil, podendo ser feito de forma relativamente satisfatória em poucas horas. Uma pessoa razoavelmente criativa é capaz de desenhar contornos em uma folha de papel, criar elementos geográficos, nomear cidades e estados e voilá, um mundo novo em folha.

    O que me questiono é porque alguém escolheria ler um livro passado em meu mundo e não em outro qualquer. O que é necessário para convencer um completo estranho a se aventurar em Mirr?

    Algumas pessoas falam em um certo "Sense of Wonder" ou Algo de Maravilhoso no bom português. Eu também sou muito crítico com esse conceito exatamente por ser algo muito subjetivo. O que maravilha alguns pode assustar ou cansar outros. Se fala muito também em fazer algo diferente e inovador, mas sabemos que isso é algo dificil de se fazer em fantasia. Geralmente a sua solução inovadora será uma mistura de diversas outras propostas já existentes.

    O que dizer então das fórmulas consagradas? As histórias maniqueistas do bem contra o mal sempre funcionam!...ou não. Por conta disso, mais uma vez levei esse questionamento a comunidade de escritores de fantasia e lá obtive algumas respostas interessantes que vão de encontro ao meu pensamento. Pode parecer altamente contraditório, mas um bom mundo de fantasia deve possuir o máximo possivel de realidade.

    Como disse bem o amigo Antonio no tópico que criei na comunidade, uma boa história só poderá ser aceita se as aflições e problemas da humanidade estiverem nelas representados. Os problemas podem ser os mesmos dos existentes em uma ficção realista, sendo que são as soluções que a fantasia nos oferece que tornam a leitura interessante. Ainda sim é preciso ter cuidado para que não se caia no vicio de resolver tudo da maneiras mais simples, justificando para si mesmo que "na fantasia tudo é possivel".

    Parafraseando ainda o amigo Antonio, um bom mundo de fantasia deve ser socialmente, historicamente e antropologicamente coerentes de forma que o leitor possa se convencer que seu mundo não fica a milhares de anos luz de distância e sim logo ali, na outra esquina. O leitor deve ter em si despertado o desejo de viver nesse mundo, para só então perceber que este também possui sua própria carga de problemas. Os problemas permanecem, mas o que muda são as soluções.

    Da minha parte, posso dizer que sempre busquei criar um mundo onde eu gostaria de viver. Acho que após tantos anos criando e desenvolvendo esse cenário, cheguei ao ponto de enxergar alguns personagens como pessoas de verdade, seres reais que poderia receber em minha casa em um final de semana casual. Chega a ser engraçado as vezes perceber que essas pessoas só existem na minha imaginação e que ainda sim são capazes de tomar decisões aquém de minha vontade.

    Meu primeiro livro será a prova de fogo para saber o quão bem (ou mal) sucedido fui na tarefa de criar esse mundo e o quão interessante ele pode ser. Talvez precise fazer correções em livros futuros, sempre tendo o cuidado de manter a coerência do cenário e das pessoas que o habitam. Caberá a vocês futuros leitores (e espero que sejam muitos) a criticar meu trabalho e me ajudar a criar um mundo onde vocês também, gostariam de morar.

  por Claudio Villa | 2 comentários


Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

O Maior dos Presentes

    Após uma semana verdadeiramente infernal (onde o termo Inferno Astral nunca fez tanto sentido), as coisas vem melhorando de Sábado para cá. Consegui retornar ao horário da manhã na Fnac (o que é um grande alívio) e o livro finalmente esta no prelo.

    Porém o post dessa semana fala sobre algo importante para mim e acredito que para qualquer pessoa que sonha em dedicar sua vida a algum tipo de arte. É fato que viver de cultura no Brasil é algo quase impossivel, e que a maioria das pessoas que, assim como eu, se dedicam a desenvolver algo sério nessa área muitas vezes depende de outra atividade para se manter.

    O fato é que todo artista (seja ele músico, ator ou escritor) sempre busca o reconhecimento junto a seus pares. Não falo aqui do reconhecimento narcisista e arrogante de que seu trabalho é uma obra prima irretocável e que por conta disso se é melhor ou superior a qualquer um. O reconhecimento que digo é a percepção de que seu trabalho agrada, mexe ou surpreende alguém de alguma forma.

    Como escritor, esse tipo de reconhecimento é muitas vezes tardio e quase nunca percebido uma vez que o autor não tem os aplausos de uma platéia para reafirmar seu trabalho. Sempre existirão aqueles leitores que buscarão um contato mais próximo com o autor, lhe enviando um e-mail (já que as cartas parecem tão ultrapassadas), assim como haverão aqueles que após fecharem seu livro, seguirão para a próxima leitura carregando alguma coisa sua adiante.

    Mas vocês devem estar se perguntando por que diabos estou falando tudo isso e onde quero chegar. A principal razão é agradecer aqueles que acompanham esse blog desde seu início e que viram os percalços passados da idéia à publicação do livro. Com a proximidade do lançamento (e a ansiedade que isso gera) o reconhecimento deixado em um comentário ou um e-mail é sempre muito significativo.

    Um desses e-mails chegou hoje e vindo de uma pessoa pela qual possuo profundo respeito e admiração. O Nardis (diretor geral da loja Morumbi) me chamou em sua sala hoje pela manhã para tratar de alguns assuntos de trabalho e aproveitou para me contar que havia visitado o blog e ficado impressionado com o conteúdo e o profissionalismo que ele viu aqui. Esse comentário foi ainda mais especial por partir de uma pessoa que conhece as dificuldades de se trabalhar com cultura no Brasil e que sempre foi para nós um exemplo de liderança e traballho em equipe.

    São essas pequenas coisas no dia a dia de um escritor iniciante que fazem valer a pena o trabalho de escrever e manter atualizado esse blog e de seguir escrevendo e criando histórias.

    É bem provável que esse blog venha a ser encerrado um dia (ao menos no modelo atual), mas ele sem dúvida será um registro muito interessante para ser revisto no futuro. Quem sabe em dez ou vinte anos ele não servirá para se fazer um retrospecto de meu início como escritor e quem sabe inspirar outros que estarão na mesma fase que me encontro agora a seguir em frente e buscar seu sonho. Só o tempo dirá...

  por Claudio Villa | 6 comentários


Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Grandes Expectativas

    No post dessa semana tomo emprestado o título do livro do autor Charles Dickens para expressar o que venho sentindo nos últimos dias.

    Com exatos sete dias até o lançamento do meu livro, não poderia ser diferente. Não consigo precisar de quantas formas diferentes eu ja imaginei esse momento nos últimos anos e a iminência de sua realização me deixa em um misto de ansiedade, nervosismo e uma certa sensação de "o que fazer depois?".

    Nos últimos quinze dias tenho me dedicado a fechar os últimos detalhes e é claro a divulgar intensamente esse momento. Foram dezenas de e-mails disparados além é claro da distribuição de convites em todos os lugares que achei conveniente. Alguns desses frutos já foram colhidos e podem ser visualizados na notícia dessa semana. Outros tantos continuam seguindo seu rumo e espero que se concretizem em breve.

    Minha amada Aninha, eternamente preocupada comigo, vem sempre me confortando e buscando baixar minhas expectativas para que não tenha de lidar com alguma frustração futura. Ela sabe que existem certas pessoas especiais cuja presença será muito importante para mim e que caso não apareçam irão me decepcionar um pouco. É normal da minha parte que com tantos pareceres positivos nos últimos dias eu espere um evento grandioso, lotado de pessoas, mas entendo a Aninha quando diz que devo estar preparado para algo pequeno e intimista, cercado, é claro pelas pessoas mais próximas.

    Talvez ainda mais instigante do que ter ali amigos e conhecidos, é ter no meio alguém estranho. É claro que autografar livros para os amigos e conhecidos é uma sensação fantástica, pois a maioria deles não só acompanharam todo esse processo como estão lá para apoiá-lo em momento tão especial.

    Porém, quando algum desconhecido se aproxima de você com o livro em punho e pede sua assinatura a imaginação do autor deve ir longe. O que fez aquela pessoa que não sabe nada ou muito pouco a seu respeito estar ali naquele momento e se dispor a investir algum dinheiro em seu trabalho? Terá algum release na mídia ou algum comentário chamado sua atenção? Será ele um leitor silencioso desse diário? Ou apenas um passante atraído pelo movimento e que ao visualizar a capa ou ler seu resumo teve seu interesse despertado?

    A vantagem do leitor anônimo frente àquele que vem me acompanhando nesses mares bravios por tantos meses é a pouca ou nenhuma expectativa em relação a obra. Talvez nada me assuste mais do que a expectativa gerada em torno de meu trabalho desde que anunciei sua publicação a quase um ano atrás. Algumas pessoas, e sou grato a cada uma delas, vem esperando ansiosamente a oportunidade de colocar as mãos em meu livro e são elas que realmente me preocupam. Será que minha história conseguirá chegar até elas da mesma forma que elas esperam? Será que o texto estava realmente pronto para chegar a mãos alheias ou será que ele poderia ser melhor? Acho que a sina de todo escritor é ter a certeza de que seu texto poderia ser melhor do que está, que poderia ter feito algo diferente. Porém é minha missão também tirá-lo da gaveta e submête-lo ao escrutínio público.

    De meus amigos espero as mais sinceras críticas para que num segundo livro possa estar mais maduro e seguro de meu texto. Já daqueles passantes anônimos só espero a oportunidade de recebê-los novamente em uma nova visita em meu mundo.

  por Claudio Villa | 2 comentários


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