Segunda-feira, 04 de Janeiro de 2010

Antologias

    No primeiro posto do ano (e espero que voltem a ser regulares), quero falar um pouco sobre algo que cresceu em muito em 2009, as antologias de contos.

    Reunião de histórias curtas, geralmente centradas em um tema comum, as antologias tem reunido em suas páginas autores anônimos e desconhecidos numa proporção jamais vista antes no mercado.

    A facilidade na edição e impressão de livros é um dos fatores que tem contribuído para o surgimento de tantas coletâneas de contos. Muitos autores se tornam organizadores, utilizam os serviços de inúmeras editoras sob demanda para lançarem seus livros. Porém, essa profusão de antologias tem um preço que deve ser avaliado antes de pagar.

    A primeira grande questão e que ao menos no Brasil, as coletâneas de contos não possuem uma venda muito expressiva. Os motivos para tal são inúmeros e eu apenas posso falar do que observo no dia a dia de uma livraria. Acho que os consumidores de literatura possuem uma certa desconfiança em relação a contos, especialmente quando esses livros envolvem vários autores.

    Lembro-me de recentemente assistir uma entrevista do autor Nelson Mota (da biografia do Tim Maia) que na ocasião estava lançando uma coletânea de suas histórias. De forma bem humorada, ele declarou a nós livreiros:

    "É um conjunto de histórias, não uma coletânea de contos, porque vocês sabem que conto não se vende no Brasil".

    Quem declarou isso não foi um autor iniciante, mas alguém consagrado, que já vendeu mais de 200.000 exemplares no Brasil (um verdadeiro marco). Aparentemente o conto tem um apelo maior ao fandon de determinado tema (o que acredito explique a boa vendagem de livros como o Steampunk e o Amor Vampiro), mas quando cai na mesmice, acaba também por cair no ostracismo.

    Outro problema a ser avaliado nas antologias é exatamente os autores que as compõe. O somho de publicar algo é no minimo tentador a qualquer pessoa, falo por experiência própria pois já passei por isso.

    É se aproveitando desse desejo muitas vezes incontido de fama e notoriedade que algumas editoras criam suas antologias de contos onde alguns autores serão "selecionados" para compô-la. Por conta disso, cada vez mais vemos pipocar por ai antologias de temas variados com vinte, trinta ou mais autores cuja unica obrigação para com a editora (que esta "apostando" no seu talento) é a de vender uma certa cota de livros para ajudar no custeio.

    A questão aqui é que a maioria das editoras não possui nenhum critério de seleção. Os autores são selecionados por kilo uma vez que cada um deles trará uma cota para custear a obra. Ao final temos uma enxurrada de livros que assim que tem suas edições esgotadas deixam a editora com o lucro, o participante com a falsa impressão de que "já é um escritor pois tem um conto publicado" e o público geral com um material de qualidade duvidosa nas mãos. Muitosdesses livros sequer chegam as livrarias, sendo vendidos aos amigos dos autores que o ajudam massageando seu ego.

    A famosa segunda edição, onde o autor começará a receber os direitos autorais, nunca é impressa e não são raras as vezes em que a editora disponibiliza o material online para "ajudar na divulgação dos autores"

    Quer dizer então que esse negócio de antologia é furada? Que devemos fugir como o diabo foge da cruz? É claro que não, mas é preciso encarar os fatos. As editoras sérias não irão lançar antologias com dezenas de autores anônimos, tão pouco irão cobrar desses a vendagem de uma cota para ajudar nas despesas. Editoras sérias selecionam, recusam e quando apreciam seu material, enviam sugestões de correções e modificações para que seu trabalho se ajuste ao resto.

    Mercado editorial é sim uma loteria, uma mistura de talento, suor e um pouco de sorte. Grandes apostas de grandes editoras afundaram enquanto editoras menores conseguiram extrair leite de pedra. Se você realmente tenciosa um dia levar a sério uma carreira de escritor, comece colocando os pés no chão.

    Um conto em uma antologia (e na minha opinião, nem mesmo um romance como é o meu caso) fazem de vocẽ um escritor. Ser escritor é superar barreiras, é escrever com regularidade, é ter método e aceitar que sua obra não é a melhor coisa já escrita no mundo. Ser autor é ter a humildade de ver que as antologias são uma ferramenta e um exercicio, que devem ser praticadas sim, mas com critério. É seu nome que esta impresso lá, pense onde você vai querer vê-lo impresso no futuro.

  por Claudio Villa


Não preencha este campo:
Nome:
Comentário:


Livraria Saraiva Livraria Cultura Livraria Sobrado Siciliano Fnac Livraria Nobel