Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
A Vida é uma Ficção
Essa semana estava lendo a Folha de São Paulo como faço todas as manhãs até reparar em um artigo escrito pelo jornalista Contardo Calligaris. O titulo: "Para que servem as Ficções?" chamou minha atenção e passei a ler.
Essencialmente o artigo fala sobre um filme chamado "Mais Estranho que a Ficção" que conta a história de um auditor de impostos que se descobre personagem de um romance escrito por uma narradora que passa a falar em sua mente. Esse detalhe me chamou bastante a atenção.
O jornalista usa esse filme para defender a ficção enquanto ferramenta para que nós seres humanos possamos aprender algo mais sobre nós mesmos. Ler essa idéia vinda de outra pessoa me fez avaliar algumas questões pessoais e a importância que a ficção possui em minha vida.
Todo escritor é antes de tudo um grande leitor e por conta disso acaba absorvendo em sua mente diversas histórias, personagens e mundos. Chegada uma certa época de sua vida como leitor, você já conheceu e conviveu com diversos personagens, sendo que muitos se tornaram tão familiares que muitas vezes parecem velhos conhecidos. Com eles nos emocionamos, sofremos e ficamos tristes (ok, com raiva as vezes) quando seu autor decide matá-los ou levá-los para longe. Matar um personagem pode parecer algo simples como escrever "e ele deu seu último suspiro e apagou", mas acreditem quando digo que as coisas não são tão simples.
Como escritor posso dizer que personagens em geral surgem como uma forma efêmera. Um nome, uma aparência, uma frase que com o tempo vai ganhando forma, cor e alma. Chega um ponto em que seus personagens deixam de ser palavras no papel e passam a ser pessoas que caminham pela terra e tomam suas próprias decisões. Você consegue imaginá-los em seus mundos, vivendo suas vidas mesmo sem que você crie novos desafios.
Quando sua história ordena (e não exagero quando digo isso, pois algumas vezes o autor se torna impotente perante sua história) que um dos seus personagens deve morrer, para mim é algo difícil de escrever. Matar vilões pode ser fácil e prazeroso, mas quando a vítima da pena é um herói, a tarefa se torna árdua. Há de se tomar cuidado para que a morte não seja algo exageradamente dramático pois aquela pessoa deixará de ser humana para se tornar uma figura. A morte tão pouco pode ser repentina ou muito veloz (com algumas exceções) pois tenho de dar ao leitor os preciosos segundos para elaborar o que está acontecendo à sua volta e para alimentar aquele ódio por mim como autor. Além disso, matar um personagem é riscá-lo de seus textos futuros, interromper sua jornada e suas descrições. Temos de deixá-lo para trás e seguir em frente.
Contardo também sugere em seu artigo que utilizemos três horas de nosso dia para narrarmos nossa rotina como um romance ficcional. Aceitei a brincadeira naquela mesma manhã e enquanto ia para o trabalho fui narrando em minha mente os acontecimentos presentes. É claro que a ida ao trabalho está longe de ter a emoção de uma aventura, mas por alguns breves instantes tive aquela sensação de algo muito maior por trás daquilo. Aquele sentimento de impotência sobre o próximo passo a ser dado e sobre como tudo pode mudar num único instante. Pode parecer bobagem, mas naquela hora me passou pela cabeça o quão dura pode ser a vida de um personagem. Sujeito aos caprichos de seu autor, sem saber se estará vivo ou morto, na glória ou na miséria dali a algumas páginas.
por Claudio Villa