Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

A Missão do Escritor

    Acho que todo mundo um dia já se pegou pensando o porquê de sermos quem somos e qual nossa missão aqui nesse mundo. Seja você uma pessoa religiosa ou não, é dificil acreditar que nossa existência se resuma a uma feliz coincidência genética ou a um acaso da natureza.

    Hoje eu estava realmente sem idéias para atualizar o blog até ler um post na comunidade Escritores de Fantasia (no Orkut) sobre um rapaz que contestava até que ponto o trabalho de escritor não é na verdade uma grande hipocrisia. Estará certo passarmos infindáveis horas sozinhos, de frente para nossos computadores ou pedaços de papel, criando e teorizando mundos fantásticos quando temos um imenso mundo aqui fora pedindo socorro?

    Não que eu queira transformar esse artigo em um manifesto a favor do ativismo social, mas temos de admitir que enquanto alguns possuem comida na mesa e um teto sobre suas cabeças, muitas pessoas por ai morrem de fome, doenças ou vitimas de guerras que muitas vezes não entendem. Qual seria a atitude mais correta? Deixar a pena de lado e iniciar algum trabalho missionário ou voluntário em prol do bem da humanidade? Gastar nosso tempo e esforço em modificar nosso mundo para melhor?

    Acho que uma atividade não exclui a outra e que mesmo como escritores podemos fazer algo, mesmo que pequeno, para melhorar o ambiente a nossa volta. Existe um ditado que diz que se você quer melhorar o mundo, comece varrendo sua própria sala.

    O escritor Andrè Vianco deu um depoimento que exemplifica bem essa situação. Já sendo um autor consagrado e com muitos fãs, é normal que algumas pessoas o procurem em busca de algum tipo de aconselhamento ou idéia. No mesmo post, onde me inspirei para escrever esse artigo, ele relatou uma história sobre como um garoto lhe escreveu um e-mail perguntando-lhe se ele era um vampiro e o que ele deveria fazer para se transformar em um.

    É normal que algumas pessoas, especialmente as mais jovens, fantasiem com uma situação diferente e vejam nos livros uma forma de escape de nossa realidade. O autor explicou ao garoto que ele não era um vampiro e que não sabia como uma pessoa poderia se tornar um. O garoto insistiu até que Vianco descobrisse o que existia por trás dos pedidos, aparentemente sem sentidos, do garoto. Ele relatou ao autor que apanhava de seus pais toda semana e que muitas vezes pensara em fugir de casa para escapar das surras. A única coisa que o impedia era o medo de morrer de fome nas ruas e que, sendo um vampiro, ele seria imortal.

    O autor então o aconselhou a buscar ajuda no Conselho Tutelar para que assim esse tipo de abuso cessasse. Acho que foi com certeza uma benção que esse garoto tenha buscado ajuda em alguém como o André que com sobriedade e humildade soube como aconselhá-lo a fazer a coisa certa.

    Acho que a partir do momento que nos propomos a criar mundos e histórias, assumimos também a responsabilidade pelas mensagens que passamos através delas. Para os leitores, os autores muitas vezes parecem ter sobre si uma aura sobrehumana, algo que os separa das pessoas comuns. Não posso negar a profunda admiração que sinto por meu autor favorito, Frank Herbert, sendo que é fácil esquecer que assim como eu ou você, ele foi uma pessoa normal com sua própria carga de problemas e frustrações.

    Não quero no futuro ser o tipo de autor que escreve apenas para satisfazer seu ego. Tão pouco quero ser o autor que só sabe escrever críticas sociais, marginalizando a literatura e a aproximando da realidade de forma a nos obrigar a enxergar sua crueza.

    Acho que minha missão como escritor é de criar um mundo de fantasia que possua sobretudo reflexos em nossa realidade. Contar histórias que possam não só entreter as pessoas, mas também fazê-las questionar as coisas a sua volta. Eu já disse aqui antes que uma das razões que me fez seguir a vocação de escritor foi a possibilidade e a excitação de poder mexer com a imaginação das pessoas; a chance de fazer as pessoas, mesmo que por algumas horas, viajarem a mundos que nós jamais poderemos viver na realidade.

    Não sei o que o futuro me reserva e nem sei se meus livros (seja lá quantos deles chegarem a ser publicados) irão sobreviver ao tempo. Só sei que se algum deles, algum dia, estimular um leitor a fazer algo diferente, seguir um sonho mesmo que seja o de se tornar também um escritor, minha missão estará cumprida.

  por Claudio Villa


Victor "BlackMoses"
Sábado, 27 de Outubro de 2007
Majestoso texto, muito bem colocado... (não vem ao caso, mas sou um grande fã de André Vianco..)

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