Domingo, 22 de Agosto de 2010

A Importância da Pesquisa

    Para fundamentar meu post dessa semana, gostaria de antes reproduzir um trecho da entrevista dada pelo autor Eduardo Spohr a revista Época. A matéria completa pode ser lida aqui

    ÉPOCA - Como foi o processo de pesquisa para escrever o livro?
    Spohr - Não foi uma pesquisa gigantesca, porque a pesquisa não pode ser mais importante que os personagens. Mas sempre gostei do tema e sempre estive em contato com ele. Li algumas passagens do Velho Testamento e o Apocalipse da Bíblia. Também li alguns livros apócrifos e de mitologia, mas tudo isso está no livro apenas como uma inspiração. É uma aventura de ficção, acima de tudo.


    Antes de qualquer coisa, que fique muito claro que minha critica aqui não se refere em absoluto a obra do Rodrigo, mesmo porque jamais poderia fazer qualquer comentário em relação a uma obra que não li. Minha reflexão aqui é sobre a declaração acima, a forma como ela foi feita e os perigos que ela acarretam.

    O processo da escrita esta longe de ser algo simples e isso aprendi a duras penas nos últimos anos. Se existe algo que é essencial para qualquer autor que deseje escrever algo de qualidade, esse algo é a pesquisa.

    Voltando a 2007 e ao lançamento de meu primeiro romance "Pelo Sangue e Pela Fé", hoje percebo que muitos dos problemas existentes no livro poderiam ter sido solucionados com duas atitudes: uma maior concisão e uma melhor pesquisa. Muitos autores, na sua febre criativa, acabam caindo na armadilha do achismo, da pesquisa pasteurizada, da referência pop sem conceito. Escrevem o que acham que esta certo na esperança de que seus leitores não irão notar.

    Sempre gosto de mencionar o caso de um livro de literatura fantástica nacional que li e que para meu desapontamento, um dos personagens possuia o nome copiado de um personagem de video game. POde ter funcionado para muitos que não perceberam esse detalhe, mas para mim foi o golpe de misericórdia do livro.

    Esta muito na moda hoje em dia essa tal de inspiração na cultura pop. Autores e mais autores cantam aos quatro ventos que suas histórias são inspiradas em animes, video games, séries de TV, sendo que muitos desses autores sequer se perguntam em quem os criadores dessas midias se inspiraram para criar. É fato que não existe algo totalmente original e que todas as histórias acabam sendo algum tipo de releitura, mas a linha que separa isso do plágio é muito tênue.

    É nesse ponto que discordo veementemente da declaração do Spohr, quando ele diz que a pesquisa não é tão importante quanto os personagens. É ai que pergunto, como esses personagens foram criados? achismo? cópia de algum personagem famoso de algum anime? Personagens não são bonecos de papel que movemos de um lado a outro, um bom personagem tem alma, tem vida, é criado e moldado não de acordo com os desígnios do autor mas sim de acordo com o ambiente onde esta inserido. E nenhuma boa ambientação pode ser criada sem uma pesquisa séria.

    Digo pela experiência que tive escrevendo "O Vento Norte". Sempre tive fascinação por piratas, mas foi somente quando pesquisei mais a fundo o assunto percebi que todos os meus achismos, minhas fontes de filmes e jogos estavam incorretas. Existem sim algumas licenças históricas, afinal é uma obra de fantasia, mas a pesquisa foi a base fundamental para que eu compreendesse esse universo e pudesse criar em cima dele.

    É por isso deixo aqui meu aviso. Não se deixem encantar somente pelas referências fáceis, pasteurizadas. Tenha na cultura pop uma de suas fontes de pesquisa e entenda que ela deva servir de inspiração, e não de fonte para copiar e colar. Sobretudo, de real importância a pesquisa, pois não se pode escrever um livro de cavalaria sem compreender as implicações de se usar uma armadura. Somente conhecendo as regras a fundo, você saberá como e onde burlá-las.

    Um livro sem pesquisas pode agradar o público mais jovem, mas habituado ao consumo rápido de informações, mas será barrado por aquele leitor mais criterioso. Vivemos em um mundo de estimulos, de tweets que perdem seus sentidos em questão de minutos. Somente uma base sólida pode fazer com que uma obra sobreviva as intempéries do tempo.

  por Claudio Villa


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