Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

A Exaltação das Orelhas

    Apesar do título estranho, o post dessa semana se refere a algo muito simples e porque não dizer curioso: os textos encontrados nas orelhas de alguns livros.

    Como consultor de vendas da área de livros é minha obrigação conhecer os principais títulos existentes na loja para que possa indicá-los para os clientes indecisos entre um título e outro. É claro que com a correria da semana (tanto no trabalho quanto em casa) fica impossível ler todos os livros que chegam na loja. Por conta disso, eu acredito que cada parte do livro possui uma função sendo que estas deveriam, em geral, serem seguidas.

    Sei que posso soar bastante conservador no que diz respeito a essa "estrutura", mas acho que se ela existe dessa forma é porque possui uma razão bastante objetiva, a de facilitar ao leitor a escolha de sua próxima leitura.

    A capa, como a embalagem de qualquer produto, deve chamar a atenção por entre tantas outras ali existentes. A menos que você seja um autor consagrado com uma legião de fãs, a capa fará toda a diferença entre a escolha de seu livro e o do vizinho de prateleira.

    Se sua apresentação chamou a atenção de um leitor e ele se dispor a pegar seu livro em mãos, sua tendência natural será virá-lo e ler sua contra capa, buscando maiores informações sobre o que aquela bela capa guarda em seu interior. O texto da contra capa é em geral rápido, uma breve pincelada na história que se propõe, uma pergunta ou desafio que atiça a curiosidade do leitor sobre a história ali contada. Se o trabalho for bem feito, você fará o leitor abrir seu livro (um passo realmente importante) e buscar nas orelhas as dúvidas que você criou na contra capa. É ai que mora o perigo.

    Se você seguir o modelo tradicional, sua orelha terá um resumo mais completo da história em sua frente e uma brevíssima ficha do autor que a escreveu. Essa ficha geralmente contém pouco mais do que o nome do autor, sua nacionalidade e talvez um pouquinho de sua obra pregressa ou gostos pessoais, mas é nesse detalhe que o autor (ou editora) pecam na minha opinião.

    Ao invés de algo simples e didático, cada dia mais eu vejo orelhas que exaltam de forma exagerada as inúmeras qualidades do autor. O texto escrito por um terceiro, em geral não identificado, ressalta as inovações estilísticas criadas pelo autor; a incapacidade do leitor de largar aquele livro que possui uma história demasiadamente envolvente, a quantidade espantosa de livros vendidos em determinado país (não importa qual) e é claro os inúmeros prêmios internacionais dos quais aquele romance foi "um dos finalistas" ou "a escolha dos jurados".

    Se não bastasse isso, muitas orelhas gostam de ressaltar outros sucessos do autor em áreas distintas da literatura como se isso o capacitasse a ser um bom escritor. Não faltam também os relatos de caráter pessoal que falam sobre como o autor possuia uma vida comum e plana e como, por uma inspiração divina, largou tudo para se dedicar à literatura e que com isso obteve o sucesso tão sonhado.

    Isso tudo me fez refletir: será que o leitor médio conhece ou se importa se determinado romance foi finalista desse ou daquele prêmio literário? Será que o consumidor de romances realmente se sensibiliza com algum autor que sacrificou a vida em nome da arte?

    Lembro-me de quando estava fazendo campanha para arrecadar fundos para meu livro e de ter adotado um discurso que apelava para o emocional das pessoas. A melhor resposta que tive para esse apelo (e que me fez rever certos conceitos) foi: "Você quer que comprem seu livro porque ele é bom ou porque estão com pena de você?"

    Como sempre sou favorável ao equilibrio e assim como detesto autores arrogantes que acham terem escrito o próximo best seller da revista Veja, não concordo com aqueles que buscam sensibilizar os outros com sua história de vida. Digo porque ja cometi esse erro e espero não repeti-lo no futuro.

    Talvez seja hora de algumas editoras reconsiderarem suas estratégias de marketing e vendas e voltem a utilizar as orelhas dos livros para informar e cativar e não para exaltar.

  por Claudio Villa


Raony Osório
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
será que o leitor médio conhece ou se importa se determinado romance foi finalista desse ou daquele prêmio literário? Será que o consumidor de romances realmente se sensibiliza com algum autor que sacrificou a vida em nome da arte? Não e não =D

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